Teatro

Paranoica, achava que o mundo estava contra ela. Sofria por nada, criava mundos complexos onde tudo dava errado.

Com mil máscaras de teatro, encenava e se aumentava. Era Tisbe, Helena e Andrômeda. Atena, Perséfone e Jocasta. Enigmática, se fazia de Esfinge e ameaçava lhe devorar. Se enamorou de semideuses e perdeu 300 homens.

Mãe e esposa de regicida. O filho matou o rei, que era seu tio. Amou Otelo, Demétrio, MacBeth e Ricardo III.

Seguiu coelhos até suas tocas. Residiu em Baker Street antes de lutar contra gigantes em Andaluzia.

Sabe a verdade sobre Bentinho e Capitu. Matou Odete Roitman.

Tem um grande irmão que vive em um bravo novo mundo e procura vingança.

Sem a máscara: nada.
Sem o enredo: vazia.

O que é ser jornalista?

Uma menina considerando a carreira de jornalismo me perguntou o que é ser jornalista.

 

Você quer saber o que é ser jornalista?

 

Eu tenho coisas muito boas e muito ruins para te contar sobre a carreira em jornalismo. A parte boa é que se você gosta de ler e não se importa de passar o dia inteiro escrevendo (com isso eu quero dizer escrevendo sobre coisas que você não necessariamente gosta), o curso de jornalismo vai abrir um mundo sensacional pra você. Você vai conhecer detalhes de coisas completamente distantes porque o jornalista acaba tendo contato com gente muito diferente.

 

Durante o curso você faz mil trabalhos mais legais do que o de todo mundo que você conhece porque metade do tempo você pode escolher os temas dos seus trabalhos e isso é ótimo. Você vai conhecer professores que são completamente apaixonados pelo jornalismo. E assistir TV nunca mais vai ser a mesma coisa. Assim como qualquer barraco na rua vai te chamar muita atenção porque o curso liga em você uma vontade de saber tudo o que está acontecendo sempre.

 

Eu sou completamente apaixonada pela minha profissão, apesar da parte ruim: o mercado para jornalismo está péssimo e não existe uma previsão de melhora. O curso vai te fazer ver o mundo de um jeito muito diferente e na hora de trabalhar, você pode ter certeza que você vai quebrar a cara. 99% dos jornalistas não trabalham em grandes veículos como a Globo ou a Abril, a maioria acaba virando assessor de imprensa e derivados. Você não vai ficar rico, nem se for trabalhar para a Globo. Assessores de imprensa, no geral, ganham bem mais e trabalhando bem menos.

 

Quem trabalha nos grandes veículos tem uma carga de trabalho de um escravo chinês, mas não troca o emprego por nada nesse mundo. O cara vira a noite da sexta trabalhando para fechar a edição do fim de semana do jornal, trabalha mais de 15h seguidas, mas ama o que faz. O cara que trabalha na TV também tem uma jornada de trabalho ridiculamente puxada, chega a fazer dois turnos seguidos num domingo de feriado, mas ama o que faz.

 

Se você não se importa de trabalhar como uma escrava chinesa, incluindo um salário de escrava chinesa, para pôr no mundo informação que pode mudar o dia de um bocado de pessoas, jornalismo é para você. Assessoria de imprensa, criação de conteúdo para marketing e publicidade, gerenciamento de redes sociais também são opções na área e (às vezes) pagam melhor, além de trabalhar só em horário comercial.

 

Eu trabalho com assessoria de comunicação e, atualmente, nenhum dos meus colegas trabalham em veículos. Isso é frustrante por um lado, mas bom por outro lado. O mercado é muito, muito, mas muito competitivo mesmo. Isso não é brincadeira. Mas como eu disse, a maioria dos jornalistas não largariam a vida que tem por nada no mundo (eu me incluo nisso). Eles vão falar com você como eu disse, eles vão te dizer que o emprego é horrível, vão te dizer que não vale a pena, mas todos eles amam o que fazem.

 

E, acima de tudo, amam reclamar do que fazem. E isso é ser jornalista.

Tony

Anthony era um perdido na vida. Filho de pais ausentes, Tony passou a maior parte da infância e adolescência na rua. O garoto bebia, se meteu com drogas, vivia brigando, mas o seu maior problema sempre foram as mulheres.

Tony desejava qualquer mulher que o olhasse. Ele mesmo acreditava que isso acontecia porque nunca teve o amor de sua mãe. Apesar de esperto e suficientemente forte, o garoto nunca foi melhor em nada e ninguém nunca desperdício atenção com ele.

Dizem que os filhos mais velhos são os favoritos, mas Tony era uma exceção. Toda essa merda fez dele meio durão e meio carente. Daquele tipo que parece não se importar com nada, mas se prende a qualquer merdinha que conseguir.

Tony se cansava da vida nas ruas. Essa vida de mulheres que vem e vão fácil acabava com ele. O garoto se sentia como o ultimo panda na China.

Um dia, ele conheceu essa garota. E, cara, que garota! Era diferente de todas as putinhas que já haviam cruzado o caminho de Tony. Ele sentia que Alice era especial. O idiota se apaixonou perdidamente pela menina.

Por ela, saiu das drogas e parou de beber. Só manteve os cigarros, porque nem só de pão vive o homem.

Foram morar juntos e tudo parecia maravilhoso. Ele tinha um bom emprego, cachorros, roupas limpas e uma sapateira. O garoto achava mesmo que tudo daria certo.

Um dia, chegando em casa, Tony viu Alice de conversa fiada com o vizinho. Cara, aquilo pegou ele pelos colhões. Naquele dia, ele deu a primeira surra em Alice.

Ele nunca tinha batido em ninguém sóbrio antes. Nem em homens, nem em mulheres. Ele se sentiu um merda e Alice, com dois dentes quebrados, o perdoou.

As brigas continuaram e foram piorando.  E ela sempre perdoava. Dizia que ele não fazia por mal, era culpa dos anos de malandragem, era a cachaça na cabeça, era a abstinência das drogas falando.

A coisa foi piorando, num certo ponto, Alice já tinha vários dentes quebrados, lhe faltava um incisivo e uma costela estava trincada. Tony se sentia sufocado.

Na última briga, Tony jogou Alice da escada e não ficou para saber se ela estaria viva.

O garoto juntou seus trapos e voltou para a casa de pensão onde viveu tantos anos. Voltou a beber, voltou às drogas. E se sentiu finalmente bem com a vida que levava. Afinal, você pode tirar um imbecil da rua, mas não pode mudar o fato de que ele é um imbecil.

Alice sobreviveu à queda. Tinha as pernas quebradas, mas tudo bem. Depois de um tempo, arranjou outro homem. Não era um bom homem, mas nunca bateu nela.

E isso é uma porra de um final feliz.

O niilista

Estava no ônibus, um dia desses, e lia Nietzsche. Eu lia tentando deixar a capa do livro o mais escondida possível para evitar problemas. O livro não que lia não é dos mais conservadores.
Mas com o tempo, a posição em que segurava o livro se tornou incomoda e, sem pensar, me ajeitei mais confortavelmente.
O título do livro ficou exposto e, em menos de cinco minutos, a senhora que se sentava ao meu lado começou a reclamar.
– Ai, moça! Esse livro não é de Deus. Você é satanista? Você tem que aceitar Jesus no seu coração.
Etc, etc, etc.
Eu não entendi de primeira o que a senhora queria dizer. Foi quando lembrei que o livro que lia era o “Anticristo”. Eu não tive reação maior do que encarar a mulher que já levantava a voz e dizia em alto e bom tom que eu ia para o inferno.
Enquanto eu ainda tentava compreender o que tinha acabado de acontecer, a senhora se levantou, inconformada por ter se sentado ao lado de uma satanista.
– Não posso seguir viagem ao lado de uma moça que não é de bem!
Assim que ela se levantou, o cara que estava de pé se sentou e respondeu a ela.
– Minha senhora, esse livro foi escrito há quase um século, critica a SUA religião, não fala de nenhum capeta, diabo, ou seja lá o que for que a senhora está pensando. Se a senhora não é provida de inteligência suficiente para compreender uma crítica e não sabe aproveitar a companhia de alguém que aprecia bons livros, azar o seu. Fique de pé a viagem toda!
Se antes eu não compreendia, nesse ponto eu já estava atônita. Aí ele se vira para mim sorrindo e diz:
– Boa tarde, dona niilista!
Eu sorri de volta ao cara mais simpático e maravilhoso que já cruzou meu caminho e respondi:
– Boa tarde, senhor niilista!
E foi assim que eu fiz amizade com um dos homens mais inteligentes que já conheci. Nunca realmente nos apresentamos, não sabemos o nome um do outro, mas as vezes nos cruzamos nessa linha que passa na Praça da Sé e sempre faz meu dia valer a pena.
Esse texto é para você, o homem sem nome que me salvou do preconceito babaca e que já me gerou boas conversas.

Segurança

Era junho. Fui conhecer Camila e descobri que teria que falar com André, que naquela manhã, como em todas as manhãs, estava meia hora atrasado.

André estava meia hora atrasado e eu meia hora adiantada. Esperei quase uma hora sentada em um sofá velho.

Quando André finalmente chegou, fiquei embasbacada com o homem que havia parado na minha frente. Ele me ofereceu um café, meio ofegante, ainda com a mochila nas costas. Eu aceitei e ele me perguntou se queria com açúcar. Disse que queria puro, ele entendeu que queria pouco e me serviu uma xícara com pouco açúcar. Explicado o erro, ele sorriu com toda a simpatia inerente ao interior do país.

Conversamos por cerca de meia hora. Foi cerca de meia hora que passei olhando para os olhos escuros mais profundos que já tinha visto. Trinta minutos olhando para as veias das mãos desse homem que exala charme. Mil e oitocentos segundos admirando como a estrutura do queixo largo combinava com o lábio inferior espesso.

Não me lembro de uma palavra que disse naquele dia. Só me lembro de André me olhando por sobre as sobrancelhas espessas. O olhar particularmente profundo, que depois descobri, é característico dele.

Naquele olhar senti a segurança que precisava. Nos olhos daquele homem de barba cerrada, senti que algo estava para mudar na minha vida.

Corvo – ode ao desemprego

Deitada entre as cobertas, renego a verdade. E das janelas abertas, a ave entra para ver a fatalidade.

Penso no desemprego que está por vir e me aconchego sem dormir.

Nunca mais. Nunca mais.

Na dor de uma doença terminal, olho para a ave no umbral. O corvo me observa como um chacal.

Nunca mais. A ave olha meus olhos gris e me diz que nunca mais. Ah, nunca mais.

Me senti ignorante e me lembrei de cada dia sufocante sabendo que meu fim chegaria a qualquer instante.

Com movimentos sobrenaturais, o corvo se aproximou e repetiu que nunca mais. Nunca mais. Nunca mais.

Penso que meu fim não deveria ser assim. Vender um rim talvez não fosse tão ruim.

Separação

Ele tinha tudo preparado para dar um pé no rabo dela. Depois de dez anos juntos, algumas coisas já o irritavam mais do que era possível suportar.
Ela nunca soube como varrer uma casa propriamente. Ela cantarolava essa música imbecil enquanto cozinhava. Cozinhava mal. Os sapatos ficavam espalhados pela casa toda. Ela reclamava o dia inteiro. Ela ronca. Sempre se atrasa.
Ele marcou de encontra-la nesse restaurante onde se viram pela primeira vez. Ele pediu um whiskey enquanto a esperava. Ela chegou atrasada e com uma cara horrível.
Tudo bem com você?
Não, benzinho. Estou péssima.
Ele já não se importava e mesmo assim perguntou: O que foi, gatinha?
Fui no médico, benzinho. Ele viu os exames. Eu estou com câncer.
Ela se pôs a chorar. Ele olhou bem nos olhos dela e pensou: É, agora fodeu.
Ela começou a explicar melhor as coisas, mas ele já nem ouvia. Só repassava na cabeça tudo o que tinha se passado com os dois durante a década em que estiveram juntos. Terminou o whiskey.
Gatinha, cala a boca.
Ela chorava muito e não parava de falar. O restaurante inteiro os olhava.
Gatinha, PELO AMOR DE DEUS, cala a boca e para de CHORAR.
Ela parou.
Gatinha, te chamei aqui hoje porque eu não te suporto mais. Estou indo embora. Fiz uma mala com as minhas coisas, está lá no carro. Boa sorte com essa história de câncer.
Deixou o dinheiro da conta na mesa e saiu.