O Intragável

E lá estávamos nós mais uma vez, uma cena comum entre nós.

Ele em frente a mim com seu expresso  e seu livro e eu com meu cappuccino e meu jornal que tentava ler e o filho duma puta começa a falar e interrompe a minha leitura.

Por habito, nem tentei continuar a leitura, dobrei o jornal, deixei na mesa e acendi um cigarro porque essa conversa ia durar uma eternidade.

Eu o encaro, os olhos verdes e fundos no rosto cansado pela insônia, o nariz arruinado pela quantidade de vezes que foi quebrado (com motivo), o cabelo ralo emplastrado em gel barato e a maldita camisa sempre arrumadinha.

Ele me vê acender o cigarro com o olhar de reprovação cada vez mais comum quando se trata de mim e eu me pego imaginando porque caralho ele continua meu amigo se o tesão que gerou a amizade passou e toda vez que a gente conversa ele sai frustrado e eu entediada.

– O seu problema é… – “ah, pronto, esse escroto vai começar a me analisar. Por que eu ainda pago meu analista?” – que você se apega muito ao conteúdo das coisas e não percebe a estrutura. – “Falando em pagar, eu paguei meu cartão de crédito?”

Ai ele começa a comparar a minha vida sexual com um artigo acadêmico mal escrito que ele adora. Eu me abstenho a somente responder quando necessário e me pego desenhando mentalmente o nariz dele. Um nariz tão feio e destruído que acaba sendo bonito, mas infelizmente no rosto de um intragável. Acendo outro cigarro.

– Você tem o habito ruim de tentar entender e interpretar tudo em visões limitadas.

– O que você quer dizer com isso? – eu digo e ele ri.

– Vê?! Você está fazendo de novo.

Ele fica duas horas literais tentando me convencer a ver as coisas como ele. Maldito marxista fanático cego. Bêbado pelo menos valia a pena, costumava ser um completo porra louca.

Observo os olhos verdes insones e me pergunto se algum dia ele terá a capacidade de calar a boca. Tão inteligente, puta que pariu, o cara é muito inteligente, consegue estragar o quão gostoso ele é de tão intragavelmente inteligente.

Cansada de tanta conversa sem sentido, finjo que o celular tocou, saio da mesa para atender e não volto mais. Foda-se,ele que pague a conta.

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