Talento

Fui condenada a uma vida sem talento.
Lia o que ele publicava na internet como quem tomava um soco na boca. Cada palavra lida escorria pela minha garganta com o gosto metálico do sangue das minhas gengivas dilaceradas.
Apreendia o amplo vocabulário que dominava no nosso idioma materno, maior que os meus três idiomas. Apanhava com a expressão mais passiva possível, apesar da hemorragia interna que sofria.
Cada referência genial, que meu carente raciocínio jamais construiria, levava mais um de meus órgãos à falência.
O desgosto causado pela total falta de capacidade intelectual multiplicava células cancerosas, aumentava aneurismas e empedrava cálcio nos meus rins.
E tudo que pude fazer no momento foi erguer as sobrancelhas e dizer “você realmente escreve bem”.

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