O Nome

Nossa história começa com Ana da Costa. Ana nunca viu graça no próprio nome. O achava muito comum, muito curto, muito sem sal. Nem um nome composto tinha que pudesse dar graça à sua graça. Ana cresceu, apaixonou-se e casou-se com José de Sousa. José também não gostava do nome que lhe foi dado. Logo, quando Ana engravidou, já estava decidido que o filho teria um nome diferente, único.
José e Ana passaram meses vendo as possibilidades do nome da criança. Deixaram estabelecido que o nome tinha que ter pelo menos três silabas, para ter espaço para sofisticação, e que deveria ter til, porque til dava status. Mas Ana dizia que não ia deixar nada decidido até pegar o filho no colo.
No dia que deu a luz ao menino, José queria chama-lo de Ubiratã. Mas Ana queria mais diferente.
– Ele vai chamar Leviatã.
– Mas, amor, a gente nem sabe o que essa palavra significa!
– Ai, José! Como você é ignorante! Era o nome de um cacique Caiapó!
– Ah, então tudo bem.
Leviatã passou a infância acreditando que o seu nome era o nome de um cacique, brincava de índio, pintava o rosto com canetinha e gostava de histórias de faroeste. Nenhum professor tinha coragem de perguntar se o menino sabia o que o nome significava.
Na quinta série, quando mudou de escola, o professor de história se chocou durante a chamada. Meio sem jeito, o professor explicou a real origem do nome do menino.
Leviatã ficou chocado. Descobrir que seu nome não vinha de um chefe indígena e sim de um monstro marinho destruiu sua infância. Ele pensou no quanto foi tolo brincando de índio.
Chegando em casa, Leviatã olhou todos os brinquedos, a decoração do quarto e as fotos vestido de índio e se sentiu mais tolo. Em crise, com uma ira monstruosa fazendo jus ao nome de Leviatã, ele tirou da casa tudo que lembrava a enganação que sofreu.
Seus pais chegaram do trabalho e viram tudo revirado. Leviatã explicou o erro que cometeram no passado. Tentando reparar seu erro, eles concordaram em mudar o nome do filho para algo menos monstruoso e menos bíblico, à escolha do menino.
Leviatã gostava de ter um nome único e pensou com cautela que nome iria adotar para si. Pensava em talvez alguma coisa em Latim.
Hoje, Leviatã se chama Aedes Aegypti de Sousa.

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