Separação

Ele tinha tudo preparado para dar um pé no rabo dela. Depois de dez anos juntos, algumas coisas já o irritavam mais do que era possível suportar.
Ela nunca soube como varrer uma casa propriamente. Ela cantarolava essa música imbecil enquanto cozinhava. Cozinhava mal. Os sapatos ficavam espalhados pela casa toda. Ela reclamava o dia inteiro. Ela ronca. Sempre se atrasa.
Ele marcou de encontra-la nesse restaurante onde se viram pela primeira vez. Ele pediu um whiskey enquanto a esperava. Ela chegou atrasada e com uma cara horrível.
Tudo bem com você?
Não, benzinho. Estou péssima.
Ele já não se importava e mesmo assim perguntou: O que foi, gatinha?
Fui no médico, benzinho. Ele viu os exames. Eu estou com câncer.
Ela se pôs a chorar. Ele olhou bem nos olhos dela e pensou: É, agora fodeu.
Ela começou a explicar melhor as coisas, mas ele já nem ouvia. Só repassava na cabeça tudo o que tinha se passado com os dois durante a década em que estiveram juntos. Terminou o whiskey.
Gatinha, cala a boca.
Ela chorava muito e não parava de falar. O restaurante inteiro os olhava.
Gatinha, PELO AMOR DE DEUS, cala a boca e para de CHORAR.
Ela parou.
Gatinha, te chamei aqui hoje porque eu não te suporto mais. Estou indo embora. Fiz uma mala com as minhas coisas, está lá no carro. Boa sorte com essa história de câncer.
Deixou o dinheiro da conta na mesa e saiu.

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