Blasé

– Você é inacreditável!
As palavras ecoam na minha memória. Ele com o indicador e o médio da mão esquerda apoiados sobre o lábio superior. A imagem da perfeição blasé impressa na memória. Aquelas palavras simples emolduradas pelo sorriso de quem sabe o que não devia.
E, quando notou que eu estava sem graça, riu-se de mim. O riso silencioso de alguém se simpatizando da falta de tato alheia. Ria-se de mim enquanto passava os dedos pelos cabelos castanhos já bagunçados, evidenciando ainda mais uma falha nos cabelos próximos à têmpora direita.
Tentei cortar o contato visual e sair do transe induzido pela mescla de verde-avelã dos olhos dele. Mudei de assunto enquanto me questionava internamente se ele tinha consciência do próprio charme.

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Clube dos 27

Eu o conheci anos atrás, quando ele tinha 23 ou 24 anos, agora não me lembro. E, logo de cara, nos entendemos. Gostávamos das mesmas coisas: comédias inteligentes, poetas marginais, revoluções falidas, rock clássico, ídolos mortos aos 27 anos, jazz e por aí seguia.
De certa forma me apaixonei, e como poderia não me apaixonar? Havia encontrado o homem perfeito para mim, com seus gostos que se encaixavam como uma luva nos meus, com pensamentos que onde não eram iguais, eram complementares.
Comecei a gravar cada detalhe dele na memória: o sorriso doce, o riso descontrolado, as veias dançando nas mãos enquanto ele escrevia, o cabelo desarrumado, a barba por fazer, o hálito de café que se misturava à colônia barata.
Apesar das inúmeras semelhanças, algumas barreiras sociais me impediram de demonstrar o que sentia e por muito tempo segurei o desejo. Hoje ele fez 32, se casou há quatro anos e meio e mudou.
Ele já não fala de seus ídolos, já não lê como lia antes, já não vive com a mesma paixão, já não ama a própria profissão, anda dormindo cedo e diz que agora é mais caseiro.
O homem que eu amei já não existe mais. Ele morreu aos 27.

Vergonha

Ele se acha grande coisa, mas
Não se levanta para lavar um prato pela própria mãe.
Acha que evangélico é tudo burro,
Que umbandista é tudo do capeta,
E não tem religião.

Eu o ouvi dizer:
“Adotar criança é importar bastardo”
“Viado devia ser fuzilado”
“Lugar de mulher minha é na cozinha”
“O Maluf faz bem pra São Paulo”

Ele grita com a própria mãe doente,
Não toma banho todo dia,
Nunca trabalhou de verdade,
Acha que os negros são escória.
Insulta os próprios filhos,
Nunca fez bem para ninguém.

Ninguém vai chorar quando ele morrer.