Teatro

Paranoica, achava que o mundo estava contra ela. Sofria por nada, criava mundos complexos onde tudo dava errado.

Com mil máscaras de teatro, encenava e se aumentava. Era Tisbe, Helena e Andrômeda. Atena, Perséfone e Jocasta. Enigmática, se fazia de Esfinge e ameaçava lhe devorar. Se enamorou de semideuses e perdeu 300 homens.

Mãe e esposa de regicida. O filho matou o rei, que era seu tio. Amou Otelo, Demétrio, MacBeth e Ricardo III.

Seguiu coelhos até suas tocas. Residiu em Baker Street antes de lutar contra gigantes em Andaluzia.

Sabe a verdade sobre Bentinho e Capitu. Matou Odete Roitman.

Tem um grande irmão que vive em um bravo novo mundo e procura vingança.

Sem a máscara: nada.
Sem o enredo: vazia.

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Negro

Amo-te. Tu me dá a energia suficiente para começar meu dia. Somente tu me traz a força que me levanta quando nada mais importa e a vida gira em torno da minha própria existência.

Amo vê-lo. Quente, fluído e perfumado. Tão negro, forte e encorpado. Me inebria o perfume de teu hálito quente e amargo, sozinho ou acompanhado. Só de olhar-te consome-me o desejo de tê-lo.

Tira meu sono, aquece minha mão no vazio das manhãs frias. Calor que me queima os lábios. Sabor que me vicia. Me ajuda quando a mente é vazia. Me enche quando a cama é vazia.

Tua cafeína corre em meu sangue. Só na profundidade de sua xícara recém consumida, me encontro inteira.

Nariz de cera

Homem encontra cadáver
Joílson, trinta e cinco anos, jornalista, careca, falastrão e baforento.
Levanta-se pela manhã, vai ao banheiro, escova os dentes com chorume, caga e estoura uma espinha que já tinha ponta amarela. Depois de analisar seu nariz batatudo no espelho e pensar se seria mais bonito de fosse um nariz de cera, ouviu a campainha tocar.
Dirigiu-se a porta, se questionando se não seria melhor largar essa profissão de merda e virar carteiro, ou talvez professor universitário. Destrancou a porta de seu apartamento, abriu-a e deparou se com um homem estendido no chão.
Achando muito estranho, tenta falar com o homem. Não tem resposta. Nota uma mancha vermelho sangue no chão abaixo do homem. Xinga a vizinha que deve ter menstruado no seu tapete. checa o pulso do homem caído, não tem pulso. Checa a respiração do homem abatido, não respira.
Caminhando intrigado, vai ao telefone, o tira do gancho, coça a bunda e disca 190:
– Bom dia – diz à atendente. – Depois de me levantar, fui ao banheiro e escovei os dentes…

Coroa

O cabelo dele está quase todo branco, ele tem quarenta e quatro anos e parece ter cinquenta. Ele é rude. A atenção que ele me dá me é incômoda. Ele está acima do peso. Todo mundo acha que ele quer me comer. Anda descabelado e tem sempre um apito. Ele é inteligente. Ele é simpático comigo. Eu o mando tomar no cu quando ele apita para pedir silêncio. Dizem que ele é sadomaso. Quando me vê, ele para as frases no meio para me cumprimentar. Ele para a aula pra me dizer oi na frente de cinquenta pessoas. Ele tem um caso nojento de psoríase.

A Confissão

– Pai, a gente precisa conversar.

– Claro, filho. O que aconteceu? É sério?

– É que… bem… eu tenho uma coisa para te contar. Já faz algum tempo que isso vem acontecendo e… é melhor que te conte antes que você fique sabendo por outra pessoa.

– O que aconteceu? Você tá se drogando?

– Não, pai. Não é isso. É que… eu meio que… sou hetero.

– Ai meu Deus! Como isso foi acontecer?!

– Não sei muito bem. É só uma coisa que eu sinto.

– Você tem certeza de que é hetero?

– Sim. Eu ate arrumei uma namorada.

– Uma namorada?! Ai meu deus! O que os vizinhos vão pensar?!

– Desculpa se eu te desapontei pai…

– Não, filho. Acho que no fundo eu sempre soube. Deve ser culpa minha, todas as partidas de futebol, o pôquer, os charutos…

O hippie

Subi as escadas do campus. Oitenta e cinco degraus que matam qualquer fumante, verdadeira tortura. Penso em mudar de universidade só para não subir mais essa escada.
Depois da escada tem uns bancos, me sento e acendo um cigarro. Observo o cara sentado na grama. Um hippie sujo: jeans surrado bege e sujo de grama, camiseta amassada, mochila rasgada, barba de revolucionário cubano, e o cabelo eu nem vou descrever. Ele me vê e se levanta: – Pode me ceder um cigarro?
– Claro, pega aí. – respondo passando o maço. Ele acende e devolve com um “valeu”.
Continuo olhando, se não soubesse que o lugar é propriedade privada, diria que era um mendigo, mas eu o conheço. Pergunto se ele está a fim de ir num showzinho de merda que vai ter na Vinte Três de Maio, ele diz que vai ver, se despede e vai para sala dele. Gente fina, esse aí.

Desencaixe

Nunca me encaixei em lugar nenhum. Único lugar minimamente confortável que encontrei para mim foi entrei outros desencaixados. Grupo animado esse da escoria.
Cheio de histéricas, hiperativos, lésbicas enrustidas, gagos, mentirosos patológicos, autistas, egocêntricos, depressivos, suicidas em potencial, bipolares, ninfomaníacas, pansexuais.
Comunistas que para sobreviver se fazem de burguês.
Lésbicas enrustidas presas à premissa de prazer com um pênis que nunca as satisfarão.
Gagos covardes incapazes de falam com uma mulher direito.
O burro débil entre filósofos.
O cara que acha que as coisas só dão errado porque ele é preto.
O gordo que se acha magro.
O evangélico tão chato que só conseguiu amigos ateus e umbandistas.
O cara que tem um mullet.
Gente que não sabe o próprio endereço.
O depressivo que cozinha salmão para a namorada que só o insulta.
O cara que pegou a namorada dando pro melhor amigo. E continua falando com eles.
O cara que acha que Marx é Deus.
O hetero que sempre se fantasia de menina.
Só peça quebrada da sociedade.
Minhas amizades eu guardo numa caixa com a etiqueta “PEÇAS QUEBRADAS”