Éramos vinte mil

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Éramos vinte mil
Às cinco da tarde daquela quinta-feira
Nos encontramos
Viemos de todos os lados da cidade com um objetivo em comum
Éramos vinte mil
Cantávamos, gritávamos, chamávamos o povo às ruas
Caminhávamos em paz pelas avenidas
Éramos vinte mil
Quando eles chegaram
Quando bloquearam nosso caminho
Éramos vinte mil
Acuados
Éramos vinte mil
Pedindo que a violência acabasse
Éramos vinte mil
Tossindo
Éramos vinte mil
Dispersados, tentando escapar
Éramos vinte mil
Espalhados por cinco ruas diferentes tentando chegar ao nosso destino
Éramos vinte mil
Crianças perdidas
Éramos vinte mil
Agredidos que se estendiam pelas ruas
Se ajudando a escapar
Protegendo uns aos outros
Éramos vinte mil
Criando barricadas com fogo
Escondidos
Esperando
Protegendo os outros tantos que não estavam ali por outros motivos
Éramos vinte mil
Fugindo dos cavalos, carros, motos, armas e bombas
Éramos vinte mil
Desarmados
Éramos vinte mil
E hoje seremos muitos mais

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Notívago

Eu imagino esse notívago que, algum dia, encontrarei numa livraria ou em um café. Eu estarei lendo Oscar Wilde e ele estará em um canto lendo Hemingway.

Ele não penteia o cabelo e tem cara de quem está sempre atrasado. Mas ele chega na hora certa. Ele levantará os olhos do livro e verá o meu livro. Demorarei um momento para reparar no notívago, mas quando o vir, me apaixonarei pelo seu livro e ele pelo meu.

Os olhos irão se cruzar e ele sorrirá. Não existe nada de extraordinário nos olhos dele, mas o sorriso tem um dente separado muito charmoso. Eu irei ao seu encontro e será fácil conversar.

Conversaremos por dias sobre livros, filmes, música e a vida. Sempre haverá assunto e, quando o silêncio chegar, não será desconfortável.

Imagino esse notívago que andará e conversará até às três da manhã. Esse homem insone será sereno, quase calado e saberá falar do que importa. O andarilho noturno irá completar tudo.

Sábado

Puta que me pariu.
São quatro horas de uma manhã de sábado e eu estou vergonhosamente
sóbria.
Minha querida amiga, a Insônia, veio me visitar mais uma vez. Aquela vadia.
Desisto de fingir para mim mesma que estou dormindo. Me levanto.
Na casa não tem um trago, nem cigarros, nem veneno de rato.
Passo café e ponho umas torradas no forno.
São quatro da manhã e a casa dorme. Os cachorros dormem. Os malditos passarinhos dormem. E eu?
Eu… PUTA MERDA… TÔ COM O DEDÃO DO PÉ SANGRANDO!
Limpo o sangue. Devo ter batido o pé em algum lugar.
Ponho açúcar no café e tomo uma xícara.
Duas xícaras.
Três xícaras.
Faço mais café e lembro que tenho que fazer mudança hoje. Puta merda.

Zazen no Copam

Meditação zazen realizada no dia 20 de abril no topo do edifício Copam

Meditação zazen realizada no dia 20 de abril no topo do edifício Copam

Meditação zazen realizada no dia 20 de abril no topo do edifício Copam

Meditação zazen realizada no dia 20 de abril no topo do edifício Copam

Meditação zazen realizada no dia 20 de abril no topo do edifício Copam

Meditação zazen realizada no dia 20 de abril no topo do edifício Copam

Meditação zazen realizada no dia 20 de abril no topo do edifício Copam

Meditação zazen realizada no dia 20 de abril no topo do edifício Copam

Para mais fotos e informações acesse obudismoeacidade.tumblr.com

A Rosa

Conto agora
O nascimento do Amor
Nos corações enamorados

Florescendo na primavera da vida
Os poetas gastaram o Amor
Gritaram aos deuses
Até que tudo desfez-se

Amantes reais sofrem
Em silêncio
E noite após noite
Contei sua historia às estrelas
Mas somente agora vejo
A Rosa vermelha do meu Amor

Amor é maravilhoso
Vale mais que o metal mais precioso
Ainda que exposto ao mundo
Como um produto de mercado
Não pode ser comprado
Nem mesmo mesurado

Mais sábio que a Filosofia
Mais poderoso que a Força
Amor que o fogo não extingue
Amor que a água não suprime
O Amor dos Amores
A Rosa do Amor

Mesmo que conheça
Dos sábios, pensamentos
Da filosofia, segredos
Por desejar uma rosa
Toda alegria pode acabar

A injustiça parcelou o mundo
Muito é dado a poucos
Pouco é dado aos muitos
E eu
Abençoada
Com os segredos da Filosofia
A sabedoria dos Sábios
E a Rosa do Amor

Inspirado em Oscar Wilde

CRÔNICA: O abismo

Toda vez que ouço ou leio sobre o cenário econômico do país, me perco nos termos e siglas e me pego imaginando um mundo todo particular.

Para mim, debentures, commodities e securities são cardumes de três variedades distintas de peixes que habitam a profundidade do Oceano Pacífico e fazem parte do ecossistema econômico da região.

As commodities nadam mais próximas à estagflação do nicho de mercado, enquanto as securities ficam entre a margem bruta e a Curva de Lafer e as debentures preferem a depreciação da Curva de Philips.

E toda a paz e o equilíbrio desse sistema viu seu fim quando os especuladores americanos descobriram o abismo econômico em 1929. Eles exploraram tanto esse paraíso fiscal que quase extinguiram uma espécie de alga local, a ad valorem. Só não conseguiram porque o Grupo Ambientalista Maynard Marshall Akerlof, associado ao Greenshoe, deram um fim para esse oligopsônio. Depois disso, os americanos ficaram sem visitar o abismo por algumas décadas. Estavam muito mais interessados em sair do planeta e muito mais ocupados em guerras quentes e frias.

Mas em 2007, novos exploradores, liderados por Fannie Mae e Freddie Mac, foram levados pelo submarino subprime mortgage até o abismo. Os especuladores e os hipotecários que desembarcaram da bolha levaram seus derivativos negociáveis e se instalaram nas águas estagnadas do abismo.

Abrindo concorrência com os americanos, logo os europeus também começaram a explorar o buraco sem fim. Em pouco tempo, espanhóis e gregos já estavam bem à frente dos americanos na exploração das águas profundas e estagnadas do abismo econômico, penetravam o fundo do oceano (porque fundo do poço é fichinha) com épsilon e tudo. Tanto desbravamento diminuiu o rating lá na zona do euro e criou uma maré de austeridade.

A maré tempestuosa tomou seu caminho para a Ásia deixando alguns tigres mirrados. E os emergentes latinos, muito protecionistas e traumatizados com suas memórias de outros mares profundos do passado, mal saíram da warrant para molhar os pés.

E isso foi o que eu consegui conectar mentalmente quando me explicaram como funciona a economia e o que propiciou a atual crise econômica.

Por Carol Fortunato
Para a Agência Hipertexto

Para ver o texto no site da Agência, acesse: http://aghipertexto.blogspot.com.br/2012/09/cronica-o-abismo.html

Nada

– Você é uma idiota.

Essa parte de mim, que pensa direito, me diz com frequência.

– Você precisa mesmo elucidar o óbvio? – Responde a parte iludida de mim mesma. – Mas um dia pode ser que tudo dê certo.

– É mesmo? Como, no auge da sua covardia, você pretende fazer com que dê certo? Sentada aí, vendo tudo dar errado e se mantendo acreditando num futuro melhor? Você não é nada.

Eu olho para mim mesma. A parte desiludida que pensa direito acende um cigarro e me encara. A parte iludida olha para os próprios pés, pensando numa resposta para mim mesma.

– Mas é ele. É ele quem vai embora comigo. – Diz a iludida.

– Ah, é? E como isso vai acontecer, se nem contato vocês mantêm? Como, se vocês mal se conhecem?! Como se vocês não se falam a mais de um ano? Como, se a última vez que você viu ele, você estava tão puta que mal disse oi?

A iludida não sabia explicar.

– Você não é nada para ele. Ele não deve nem se lembrar do seu nome.

– Você está errada! – A iludida não podia mais ficar calada. – Você sabe tão bem quanto eu que ele não vai se esquecer. Ele não pode esquecer. Eu sou alguma coisa na história dele. Até onde eu sei, ele pode muito bem estar tendo a mesma conversa com ele mesmo. Você se lembra perfeitamente bem, que nos últimos tempos, ele não era ele mesmo.

– Pode ser. E também pode ser que essa memória de você seja parte do ele antigo. Esse ele de hoje se esqueceu de você.

– Pode ser. Eu não tenho como ter certeza.

– E isso vai me consumir.