Teatro

Paranoica, achava que o mundo estava contra ela. Sofria por nada, criava mundos complexos onde tudo dava errado.

Com mil máscaras de teatro, encenava e se aumentava. Era Tisbe, Helena e Andrômeda. Atena, Perséfone e Jocasta. Enigmática, se fazia de Esfinge e ameaçava lhe devorar. Se enamorou de semideuses e perdeu 300 homens.

Mãe e esposa de regicida. O filho matou o rei, que era seu tio. Amou Otelo, Demétrio, MacBeth e Ricardo III.

Seguiu coelhos até suas tocas. Residiu em Baker Street antes de lutar contra gigantes em Andaluzia.

Sabe a verdade sobre Bentinho e Capitu. Matou Odete Roitman.

Tem um grande irmão que vive em um bravo novo mundo e procura vingança.

Sem a máscara: nada.
Sem o enredo: vazia.

Anúncios

Blasé

– Você é inacreditável!
As palavras ecoam na minha memória. Ele com o indicador e o médio da mão esquerda apoiados sobre o lábio superior. A imagem da perfeição blasé impressa na memória. Aquelas palavras simples emolduradas pelo sorriso de quem sabe o que não devia.
E, quando notou que eu estava sem graça, riu-se de mim. O riso silencioso de alguém se simpatizando da falta de tato alheia. Ria-se de mim enquanto passava os dedos pelos cabelos castanhos já bagunçados, evidenciando ainda mais uma falha nos cabelos próximos à têmpora direita.
Tentei cortar o contato visual e sair do transe induzido pela mescla de verde-avelã dos olhos dele. Mudei de assunto enquanto me questionava internamente se ele tinha consciência do próprio charme.

Talento

Fui condenada a uma vida sem talento.
Lia o que ele publicava na internet como quem tomava um soco na boca. Cada palavra lida escorria pela minha garganta com o gosto metálico do sangue das minhas gengivas dilaceradas.
Apreendia o amplo vocabulário que dominava no nosso idioma materno, maior que os meus três idiomas. Apanhava com a expressão mais passiva possível, apesar da hemorragia interna que sofria.
Cada referência genial, que meu carente raciocínio jamais construiria, levava mais um de meus órgãos à falência.
O desgosto causado pela total falta de capacidade intelectual multiplicava células cancerosas, aumentava aneurismas e empedrava cálcio nos meus rins.
E tudo que pude fazer no momento foi erguer as sobrancelhas e dizer “você realmente escreve bem”.

Imaginação

Imaginação fertil é pensar em um negão gordão comilão de macacão com mó cabelão comendo leitão com macarrão e agrião dentro de um balão cantando o refrão de “Dupla Traição” do Djavan com um puta vozeirão.

Enquanto um sultão grandão lê o alcorão tomando chimarrão dentro de um vagão cheio de torcedores do Timão felizes porque sei lá quem vai pra seleção.

Ao passo que um alemão solteirão assiste televisão, pra falar a verdade, era o Programa do Faustão, comendo um pão com requeijão e salsichão pensando na solidão desse mundão.

Depois disso um peão pidão comeu pela primeira vez um salpicão de salmão, porque a namorada, que é um mulherão, sempre tenta um pouco de inovação. Ele pede perdão mas prefere comer pastelão ou melão ou mamão, até, quem sabe, um mexilhão, mas aquilo não, meu irmão. Mas mesmo assim ele come por educação.

Precisa mesmo de muita dedicação e café Pilão pra fazer esse monte de rima sem uma razão só por que um amigo fez uma riminha no Twitter

Negro

Amo-te. Tu me dá a energia suficiente para começar meu dia. Somente tu me traz a força que me levanta quando nada mais importa e a vida gira em torno da minha própria existência.

Amo vê-lo. Quente, fluído e perfumado. Tão negro, forte e encorpado. Me inebria o perfume de teu hálito quente e amargo, sozinho ou acompanhado. Só de olhar-te consome-me o desejo de tê-lo.

Tira meu sono, aquece minha mão no vazio das manhãs frias. Calor que me queima os lábios. Sabor que me vicia. Me ajuda quando a mente é vazia. Me enche quando a cama é vazia.

Tua cafeína corre em meu sangue. Só na profundidade de sua xícara recém consumida, me encontro inteira.

Nariz de cera

Homem encontra cadáver
Joílson, trinta e cinco anos, jornalista, careca, falastrão e baforento.
Levanta-se pela manhã, vai ao banheiro, escova os dentes com chorume, caga e estoura uma espinha que já tinha ponta amarela. Depois de analisar seu nariz batatudo no espelho e pensar se seria mais bonito de fosse um nariz de cera, ouviu a campainha tocar.
Dirigiu-se a porta, se questionando se não seria melhor largar essa profissão de merda e virar carteiro, ou talvez professor universitário. Destrancou a porta de seu apartamento, abriu-a e deparou se com um homem estendido no chão.
Achando muito estranho, tenta falar com o homem. Não tem resposta. Nota uma mancha vermelho sangue no chão abaixo do homem. Xinga a vizinha que deve ter menstruado no seu tapete. checa o pulso do homem caído, não tem pulso. Checa a respiração do homem abatido, não respira.
Caminhando intrigado, vai ao telefone, o tira do gancho, coça a bunda e disca 190:
– Bom dia – diz à atendente. – Depois de me levantar, fui ao banheiro e escovei os dentes…